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sábado, 6 de dezembro de 2014

34 HISTORIAS reais sobre a SANTA MISSA por São Leonardo Porto-Maurício (conforme a edição romana de 1737 dedicada a S.S. o Papa Clemente XII)

Por São Leonardo Porto-Maurício
(Do Livro: EXCELÊNCIAS da SANTA MISSA de 1737)
I
O bem-aventurado João, o Bom, de Mântua, levou um eremita seu companheiro a compreender esta verdade. Este não conseguia persuadir de que a palavra de um padre tivesse o poder de mudar a substância do pão, no Corpo de JESUS CRISTO, e a do vinho em seu Sangue; e, o que é mais deplorável, tinha cedido a essa tentação diabólica. O servo de DEUS percebeu o erro do companheiro, e, conduzindo-o a beira de uma fonte, aí encheu de água uma taça e deu-lhe de beber.
Depois de sorver toda a água, o outro confessou que jamais, em toda a sua vida, provara um vinho tão delicioso. Então João, o Bom, disse-lhe: “Não vedes o milagre, meu querido irmão?
Se, por meio de um miserável como eu, a água se mudou em vinho pela onipotência divina, quanto mais deveis crer, por meio das palavras do sacerdote, que são palavras de DEUS, o pão e o vinho mudam-se no Corpo e Sangue de JESUS CRISTO?
Quem ousaria jamais pôr limites à onipotência de DEUS?”
Bastou isso para dissipar o engano do eremita, que, expulsando de seu espírito toda a dúvida, fez grande penitência por seu pecado.
II
Um espírito, falando pela boca de uma pessoa, fez com que um judeu incrédulo compreendesse esta verdade, por meio de uma comparação material e grosseira. O homem achava-se numa praça com muitas pessoas, entre as quais a mulher possessa. Nesse momento passou um padre que levava o Santo Viático a um doente. Todos os presentes se ajoelharam e prestaram homenagem ao Santíssimo Sacramento. Só o judeu ficou imóvel e não deu sinal algum de respeito. Vendo isso, a mulher levantou-se furiosa, arrancou-lhe o chapéu e deu-lhe um vigoroso bofetão, dizendo-lhe. “Desgraçado, porque não te prostras diante do verdadeiro DEUS presente neste Divino Sacramento?” – “Que DEUS?”, replicou o judeu. “Se fosse verdade, a consequência seria haver muitos deuses, pois, ao celebrarem a Santa Missa ele estaria em cada um dos vossos altares”.
A estas palavras, o espírito, que habitava naquela mulher, tomou um crivo e opondo-se ao sol, disse ao judeu que olhasse os raios filtrando-se pelos buracos. Em seguida ajuntou: “Dize-me, judeu, há então muitos sóis passando pelas aberturas deste crivo, ou um só?” E, à resposta do judeu de que não havia senão um sol, a mulher replicou. “Por que te espantas, então, de que DEUS, feito Homem e feito Sacramento, possa ter, por um excesso de amor, uma presença real e verdadeira sobre vários altares, permanecendo, no entanto, uno, indivisível e imutável?” Foi o suficiente para confundir a incredulidade do judeu, que por esse raciocínio se viu constrangido a confessar a verdade de nossa Fé.

III

Para isto, quando participamos da Santa Missa, devemos imitar Afonso de Albuquerque. Achando-se, com sua frota, em perigo de naufragar numa horrível tempestade, teve uma inspiração: tomou nos braços uma criança que viajava em sua nau, e, elevando-a ao alto, exclamou: “Se todos somos pecadores, esta criaturinha é certamente sem mácula, Ah! Senhor por amor deste inocente compadecei-vos dos culpados!” Acreditareis? A vista dessa criança inocente agradou tanto a DEUS, que Ele acalmou o mar e devolveu a alegria àqueles infelizes, gelados já pelo terror da morte certa.

IV

Conta-se de uma santa alma que, totalmente abrasada de amor a DEUS, traduzia em mil desejos o ardor de sua ternura: “Ah! meu DEUS, dizia ela, quisera ter tantos corações e tantas línguas como há de folhas nas árvores, de átomos no ar e de gotas d´água, para vos amar e louvar como mereceis. Oh! Se eu tivesse em meu poder todas se consumissem de amor por vós, contanto que eu vos amasse mais que todas juntas, mais que todos os Anjos, os Santos e todo o Paraíso!” Certo dia em que tal desejo repetia com mais fervor do que nunca, ouviu o SENHOR responder-lhe: “Consola-te, minha filha, pois com uma só Missa que participas com devoção, dás-me toda esta glória que me desejas, e ainda mais infinitamente.”

V

Narra São Gregório que uma pobre mulher encomendava a celebração de Santas Missas, todas as segundas-feiras, em ação de graças, para o seu marido, que ela julgava morto, pois ele caíra nas mãos dos bárbaros. Estava vivo, porém, e durante o tempo em que se celebravam essas Santas Missas, a cadeias se lhe soltavam dos pés e das mãos e lhe caíam as algemas, e ele ficava livre e desembaraçado, como, ao libertar-se da escravidão, pôde contar a sua mulher.

VI

A venerável irmã Francisca Farnese vivia em contínuos tormentos de amor, por se ver inteiramente cumulada de benefícios divinos, sem encontrar o meio de depor tão pesado fardo, dando ao Senhor um
reconhecimento suficiente. Certo dia apareceu-lhe a Santíssima Virgem e, depondo-lhe nos braços o divino infante, disse-lhe: “Toma-O, Ele é teu, e saibas dele servir-te, pois com Ele pagarás todas as tuas dívidas.

VII

Podemos dizer, por isso, que a Santa Missa é o sol do gênero humano espalhando seus raios sobre os bons esobre os maus, e alma não há tão pérfida sobre a terra, que assistindo à Santa Missa, dela não aufira qualquer grande bem, e muitas vezes mesmo sem nele pensar ou pedi-lo. Santo Antonino conta que um dia dois jovens libertinos passeavam numa floresta. Um deles havia assistido à Santa Missa e o outro não. Levantou-se subitamente furiosa tempestade, e no meio dos trovões e relâmpagos ouviram eles uma voz que clamava: “Mata! Mata!” No mesmo instante o raio esbraseou o ar e feriu aquele que não assistira à Santa Missa. O companheiro apavorado, prosseguiu o caminho buscando um refúgio, quando ouviu novamente a mesma voz, que repetia. “Mata! Mata!” O pobre rapaz nada mais esperava senão a morte. Uma outra voz, porém, respondeu: “Não posso, pois ele assistiu à Santa Missa. A Santa Missa a que ele assistiu impede-me de feri-lo.” Oh! Quantas vezes DEUS não vos livrou da morte, ou, pelo menos, de numerosos e graves perigos, graças às Santas Missas a que tiverdes assistido! Disso nos assegura São Gregório no quarto de seus Diálogos: Per auditionem Missae homo liberatur a miltis malis at periculis, diz o santo Doutor. “Sim, é verdade que aquele que assiste devotamente à Santa Missa será preservado de muitos males e perigos, se bem que disto não se aperceba.” Santo Agostinho chega a afirmar a preservação da morte súbita, o golpe mais terrível com que a Justiça Divina fere os pecadores.

VIII

Existe certa crença, por alguns atribuída a Santo Agostinho, de que durante o tempo em que se assiste à Santa Missa não se envelhece, mas a força e o vigor do fiel se ocupa saber se isto é ou não verdade, mas digo sem receio que, mesmo envelhecendo em idade, não se envelhece me malícia, pois, na expressão de São Gregório, uma pessoa que assiste com devoção à Santa Missa conserva sua alma no caminho reto.

IX

Foi o que verificou uma mulher de má vida em Roma. Inteiramente esquecida de sua salvação, não pensava senão em satisfazer suas paixões, e servia de agente de satanás para corromper a mocidade. Já não fazia nenhuma boa ação, a não ser encomendar quase todos os dias uma Santa Missa pelas almas do Purgatório. Oh! Essas almas, como se pode crer piedosamente, oraram tão bem por sua benfeitora, que um belo dia, tomada de profunda contrição de suas faltas, ela abandonou sua casa infame, foi prostrar-se aos pés de um zeloso confessor, fez sua confissão geral e pouco tempo depois morreu em consoladoras disposições que todos ficaram persuadidos de sua salvação eterna. Esta graça tão admirável foi atribuída à eficácia das Santas Missas que ela encomendava pelas lamas do Purgatório.

X

Santo Anselmo vos ensina que uma única Santa Missa assistida ou celebrada por vossa intenção durante vossa vida, vos será talvez mais útil que mil depois de morrerdes. Bem compreendera esta verdade aquele rico mercador de Gênova que ao morrer, não deixou nenhuma disposição para assegura-se sufrágios. Todos se admiravam de que um homem tão rico, tão piedoso e generoso para com todo mundo, tivesse sido tão cruel consigo. Mas, terminados os funerais, encontraram-se lançadas, em um de seus livros de contas, as grandes caridades que fizera por sua alma durante a vida. “Missas celebradas por minha alma, dois mil escudos; para o casamento das jovens, dez mil; para tal santuário, duzentos, etc.” E no fim lá estava escrito: “Porque quem deseja o próprio bem, faça-o a si durante a vida, e não conte com os outros para que lho façam depois de morto.” É provérbio bastante conhecido que uma vela à frente clareia mais que uma tocha atrás

XI

Era opinião de São João Crisóstomo, opinião aprovada e confirmada por Gregório, no quarto de seus Diálogos, que, no momento em que o padre celebra a Missa, os céus se abrem, e multidões de Anjos descem do Paraíso para assistir ao santo Sacrifício. São Nilo abade, discípulo do mesmo São Crisóstomo, afirma que via, quando este santo doutor celebrava, uma grande multidão daqueles espíritos celestes assistindo os ministros sagrados em suas augustas funções.

XII

No testemunho de Cesário, quando ele celebrava a Santa Missa, após o Evangelho virava-se para o povo e o exortava a um piedoso recolhimento e impunha a todos guardar o mais rigoroso silêncio, não só proibindo a menor palavra, mas ainda abstendo-se de tossir ou fazer qualquer ruído. E era obedecido. Quem quer que assistisse à Santa Missa do santo Bispo, sentia-se tomado de profundo respeito e comovido até ao fundo da alma, tirando assim grande proveito e acréscimo de graças

XIII

Mas como encontravam estes Santos tantas delícias espirituais na celebração da Santa Missa! É que celebravam como se estivessem em presença de toda a corte celeste. Assim acontecia realmente a São Bonet, Bispo de Clermont. Uma noite em que ficara sozinho na Igreja, apareceu-lhe a Santíssima Virgem rodeada de uma multidão de Santos. Alguns dentre eles perguntaram à augusta Rainha quem devia celebrar a Santa Missa. “Bonet, o meu servo bem-amado”, respondeu ela. O santo Bispo, ouvindo pronunciar seu nome, recuou assustado, buscando esconder-se, e a parede de pedra, sobre a qual se apoiou, por um grande milagre, amoleceu; a forma de seu corpo aí ficou impressa e ainda se pode ver. Sua humildade só lhe serviu para o tornar mais digno. Teve de celebrar em presença da Santíssima Virgem, com assistência de todos aqueles cidadãos do Céu. Depois da Santa Missa a Santíssima Virgem Maria, deu lhe uma alva de fulgente brancura e de estofo tão fino como não se pode encontrar nenhum comparável. Ainda hoje se venera esta alva como preciosa relíquia. Com que modéstia, pergunto-vos, com que recolhimento e amor não terá ele celebrado aquela Santa Missa

XIV

A gloriosa Santa Mectilde viu a alma de um irmão leigo envolta em deslumbrante claridade por ter-se empregado com extremo fervor em servir em todas as Santas Missas que pudera.

XV

São Tomás de Aquino, o sol da Escolástica, conhecia bem o valor inestimável deste ofício de servir no divino Sacrifício, e não se dava por satisfeito se, depois de ter celebrado a Santa Missa, não ajudava outra

XVI

São Tomás More, chanceler da Inglaterra, punha suas delícias nesta santa função; e certo dia, admoestado por um grande do reino que lhe avisava de que o rei Henrique veria com desprazer ação tão pouco digna dum primeiro ministro, respondeu: “Não pode segredar a meu senhor, o rei, que eu sirva o Senhor de meu rei, o qual é o Rei dos reis e o Senhor dos senhores.”

XVII

Constantino Magno não só assistia todos os dias à Santa Missa, mas, quando partia em qualquer expedição, em pleno fragor da guerra e ruído das armas, fazia-se acompanhar dum altar portátil no qual mandava celebrar diariamente a Santa Missa, e por este meio alcançou retumbantes vitórias.

XVII

O Imperador Lotário observava sempre a mesma prática. Em tempos de paz como de guerra, fazia questão de assistir, todos os dias, a três Santas Missas.

XVIII

O piedoso Henrique III, rei da Inglaterra, assistia, do mesmo modo, a três Santas Missas diárias, para grande edificação de sua corte.

XIX

basta considerar a grande alma de Maria Clementina, a piedosa rainha cuja perda Roma ainda chora. Como ele se dignou dizer-me muitas vezes, punha todas as suas delícias em assistir ao Divino. Sacrifício e todos os dias assistia a todas as Santas Missas que podia. Mantinha-se imóvel, sem almofadas, sem apoio, como uma estátua.
E por esta devota assistência à Santa Missa, acendeu-se em seu coração amor tão ardente a JESUS-Hóstia, que se esforçava por assistir diariamente a três ou quatro bênçãos do Santíssimo Sacramento. Sua carruagem percorria a toda a velocidade as ruas de Roma, a fim de permitir-lhe chegar a tempo nas diversas igrejas. E quantas lágrimas derramou esta santa mulher para mitigar a fome que tinha de pão dos Anjos, fome tão veemente que lhe causava enlanguescimento noite e dia, porque seu coração se achava a todo instante transportado aonde estava seu tesouro.

XX

o exemplo da São Venceslau, rei da Boêmia, que todos devem imitar, se não em tudo, ao menos na medida do possível. Este Santo rei, não contente em assistir diariamente a muitas Santas Missas, de joelhos sobre o chão duro,e de servir aos padres no altar, com mais humildade que um seminarista, presenteava, ainda, as igrejas com as jóias mais preciosas de seu tesouro e as mais ricas tapeçarias de seu palácio.
Costumava, além disso, confeccionar, com suas próprias mãos, as hóstias destinadas ao santo Sacrifício.
Para este fim e sem receio de diminuir sua dignidade real, com suas mãos feitas para empunhar o cetro, cultivava um campo, conduzindo a charrua, semeava o trigo, fazia a colheita, depois moía os grãos, peneirava a farinha, preparava e cortava as hóstias e as apresentava como mais profundo respeito aos sacerdotes, para que as convertessem no Corpo do Salvador. Ó mãos dignas, de São Venceslau, de empunhar o cetro da Terra inteira! Qual foi, porém, a recompensa de tão terna piedade?

XXI

A bem-aventurada Ivete teve, certo dia, uma visão, que devia inspirar a essas pessoas o temor respeitoso devida à Santa Missa. Ao assistir à Santa Missa viu essa nobre flamenga um espetáculo terrível. Perto dela estava uma dama distinta, cujo olhar se fixava aparentemente no altar; mas não era para seguir o Santo Sacrifício, nem para adorar o Santíssimo Sacramento que ia receber, e sim, para satisfazer uma paixão impura. Em volta dela estavam um grande número de demônios que dançavam e se expandiam em demonstrações de regozijo. Quando ela se levantou para se dirigir à mesa sagrada, uns lhe seguraram a cauda do vestido, outro lhe ofereceu o braço enquanto outros lhe
faziam cortejo e serviam-lhe como a sua senhora. No momento em que o sacerdote descia do altar com a Santa Hóstia na mão a fim de dar a comunhão àquela infeliz, pareceu a Ivete que o Salvador abandonava as santas espécies e volvia ao Céu, repugnando-Lhe entrar num coração assim rodeado de espíritos das trevas.
Aterrorizada por semelhante cena, a bem-aventurada Ivete dirigia humildes preces a Nosso Senhor. E Ele revelou-lhe a causa, fazendo-lhe ver que aquela mulher alimentava uma paixão desordenada por uma pessoa que se achava próxima do altar, e que durante toda a Santa Missa, ao invés de se ocupar dos Santos Mistérios, contemplava-a com olhares impuros, desejando antes lhe agradar que agradar a DEUS. Por isso rodeavam-na os demônios e faziam-lhe o cortejo.
Dir-me-eis que não sois do número dessas infelizes criaturas, e eu creio de boa vontade. Se, entretanto, ides à Igreja com certos trajes escandalosos, mereceis todas as censuras.
Transformeis o templo sagrado em covil de ladrões, pois roubais a DEUS a honra, pelas distrações que provocais aos sacerdotes, aos ministros, a todo o povo.

XXII

Que sucederia, no entanto, se fôsseis à Santa Missa para vos entregardes à tagarelice, à curiosidade, às distrações voluntárias, e voltásseis com as mãos vazias? Foi o que sucedeu a uma camponesa, que morava em uma aldeia m pouco afastada da Igreja. Querendo alcançar uma graça importante, ela prometeu assistir à Santa Missa durante um ano. Com esta intenção, todas as vezes que ouvia repicar o sino anunciando a Santa Missa, em alguma Igreja dos arredores, largava imediatamente seu trabalho e punha-se a caminho sem atender sequer às inclemências do tempo. De volta a casa, para não perder a conta das Santas Missas assistidas, que tencionava completar exatamente conforme se impusera, depositava cada vez uma fava em uma caixa cuidadosamente guardada. Passou-se o ano, e ela, certa de ter cumprido a promessa e alcançado muitos méritos, foi abrir a caixa. Ora, de tantas favas que ajuntara, só encontrou uma. Surpreendida e consternada, invadiu-a um grande pesar, e dirigiu-se a DEUS, dizendo-lhe lacrimosa: Ó SENHOR, como é possível que, de tantas Santas Missas
que participei, só uma se encontre de sobra? Nunca faltei, a despeito do esforço a fazer, do mau tempo, da chuva, do frio e do caminho ruim!
DEUS então lhe inspirou a idéia de contar sua infelicidade a um piedoso sacerdote muito prudente.
Este lhe perguntou de que modo ia ela à igreja, e com que devoção assistia ao santo Sacrifício. Então ela disse-lhe que, no caminho só falava de negócios ou de diversões e passava o tempo dos divinos mistérios a tagarelar com um e outro, tendo o espírito ocupado exclusivamente com sua casa e seus campos. “Aí está, lhe disse o padre, o motivo de nada restar dessas Missas. A tagarelice, a curiosidade, as distrações voluntárias vos roubaram todo o mérito. Satanás vo-lo roubou. Por isso vosso Anjo fez desaparecer as favas, para vos mostrar que as obras mal feitas, ficam perdidas. Dai graças a DEUS porque, pelo menos, uma das Santas Missas, foi bem assistida e vos trouxe frutos.”

XXIII

Conta-se que certa mulher, tendo caído em grande miséria, estava em extremo desespero, num lugar solitário. Apareceu-lhe satanás e disse-lhe que se ela quisesse distrair as pessoas na igreja, por meio de conversinhas e falatório inútil e inconveniente, ele a tornaria rica como nunca. A miserável mulher aceitou a proposta e pôs-se a executar o diabólico ofício, alcançando plenos resultados: agia e falava de tal maneira que ninguém perto dela podia assistir atentamente à Santa Missa, nem a outras cerimônias.
Não durou muito, porém, que não pesasse sobre ela a mão de DEUS.

XXIV

É o que prova a história dos três negociantes de Gúbio. Dirigiram-se a uma feira que se realizava num burgo chamado Cisterno. Depois de vender suas mercadorias, dois deles começaram a pensar na volta e resolveram partir no dia seguinte de madrugada, a fim de estarem em casa ao cair da tarde. O terceiro discordou desta resolução e declarou que, sendo o dia seguinte um domingo, não se punha a caminho se antes ter assistido à Santa Missa. E exortou os outros, se queriam voltar como tinham vindo,
teriam primeiro que assistir à Santa Missa; em seguida fariam uma refeição e partiriam abençoados.
Além disso, se não pudessem chegar naquela mesma noite a Gúbio, não faltariam albergues confortáveis no caminho.
Os companheiros não se renderam aos conselhos salutares e sensatos; mas, decididos a chegar naquela mesma noite a seus lares, responderam que DEUS havia de perdoar-lhes se pro aquela vez faltassem à Santa Missa.
Assim, no domingo, antes da aurora, sem entrar sequer na igreja, montaram a cavalo e tomaram a estrada para sua terra.
Em breve chegaram à torrente de Corfuone, que a chuva torrencial da noite anterior engrossara a ponto de fazer transbordar. A água, em corrente impetuosa, sacudira e deslocara bastante a ponte de madeira.
Os dois negociantes meteram-se por ela com suas alimárias, mas, bem não tinham chegado ao meio, rompeu-se o madeirame à pressão da água e os dois cavaleiros precipitaram-se no rio onde se afogaram, perdendo assim dinheiro, mercadorias e a vida.
Ao fragor desta catástrofe, acorreram os camponeses, e por meio de ganchos e varapaus conseguiram retirar os cadáveres que deixaram estendidos na margem, para que fossem identificados e se lhes pudesse dar sepultura.
O terceiro, entretanto, que se deixara ficar para cumprir o preceito de assistir à Santa Missa, pôs-se a caminho alegre e animado. Ao chegar à mesma torrente, viu na margem os dois mortos, e por curiosidade se deteve para olhá-los.
Reconheceu imediatamente seus dois amigos e ouviu emocionado a descrição da tragédia.

XXV

Aprendei-o daqueles dois artesãos que Surius menciona. Exerciam ambos a mesma profissão; um tinha encargo de família, mulher, filhos e sobrinhos; o outro vivia só com sua mulher. O primeiro mantinha a casa decentemente e os negócios andavam às maravilhas.
Não lhe faltavam nem fregueses em sua loja, nem encomendas de trabalhos; e todos os anos ainda punha de lado boas economias para o casamento das filhas. O segundo nunca tinha trabalho, passava fome, e caminhava para a ruína.
Um dia disse confessadamente ao vizinho: mas o que é que fazes! As bênçãos de DEUS chovem sobre a tua família, enquanto eu, infeliz de mim, vivo embaraçado nos negócios e todas as desgraças caem sobre a minha casa. O amigo replicou, vou ensinar-te. Amanhã de manhã estarei em tua casa, e te mostrarei onde encontro tantos bens.
Na manhã seguinte levou o amigo á Igreja para assistir à Santa Missa, e reconduziu-o, após, à oficina. Fez a mesma coisa duas ou três vezes. Disse então o outro: Não precisas mais dar-te o trabalho de levar-me à Santa Missa: já sei o caminho, se está nela o teu segredo. Concordo respondeu o amigo. Vá todos os dias assistir à Santa Missa, e verás que tua sorte há de mudar.
Aconteceu, com efeito, que, desde que ele começou a assistir diariamente à Santa Missa, começou a aparecer-lhe trabalho, e em pouco tempo pagou suas dívidas e repôs sua casa em excelente estado.
Credes no Evangelho? Ora, se credes, como podeis por em dúvida esta verdade que ele claramente:
Buscai, em primeiro lugar, o reino de DEUS e sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas. Querite primum regnum DEI, et haec omnia adjicientur vobis” (Mt 6,33)
Se duvidais ainda, fazei a experiência: assisti, com devoção e ativamente, à Santa Missa, durante um ano, e se vossos interesses temporais não tomarem melhor andamento, aceitarei todas as censuras. Não será, porém assim. Pelo contrário tereis amplos motivos para agradecer-me.

XXVI

Era este o piedoso costume de São Elzéar, conde de Arian. Entre as boas regras que deu á sua casa, a primeira era que cada manhã todos assistissem à Santa Missa: servos, servas, lacaios, todos, queria ele ver na Igreja à hora da Santa Missa.
É costume santo, que muitos fidalgos praticam em Roma, cardeais e prelados que diariamente assistem à Santa Missa e fazem questão de ver ao seu redor todos os componentes de sua casa.
E não creiais que o tempo assim empregado pelos servidores seja perdido para vós. DEUS vos há de computa-lo.

XXVII

Santo Isidoro não passava de um pobre lavrador, mas tomava cuidado, de nunca faltar à Santa Missa pela manhã. DEUS então, para demonstrar-lhe quanto prezava esta devoção, mandava aos Anjos lavrar o campo de Isidoro enquanto ele estava na Igreja. Não é de esperar que DEUS faça para vós milagres tão sensíveis, mas de muitas maneiras irá Ele recompensar-vos por vossa piedade!


XXVIII

Era um vinhateiro que mantinha sua família com o suor de seu rosto, e que tinha o hábito de assistir, cada dia à Santa Missa, antes de ir para o trabalho. Dirigindo-se uma manhã bem cedo ao local onde se tratava trabalho, esperava que algum patrão viesse contratá-lo para aquele dia. Ouviu, porém o repicar do sino, e, conforme o costume, foi à igreja fazer suas orações.
Terminada aquela Santa Missa, foi celebrada outra, e ele, levado por sua devoção, deteve-se para assisti-la. De volta, enfim, ao lugar costumado, encontrou-o deserto, pois todos os trabalhadores tinham sido já contratados e haviam partido para o trabalho nos campos. O pobre homem encaminhava-se muito triste para a casa, quando encontrou um cidadão muito rico, o qual, notando-lhe o ar preocupado, perguntou-lhe o motivo daquele pesar.
- Que se há de fazer? Hoje de manhã, para não perder a Santa Missa, perdi minha diária, respondeu.
Não se aflija, replicou o rico, vá a igreja, assista à outra Missa, em minha intenção, e logo a tarde pagar-lhe-ei sua diária. O operário obedeceu e assistiu a todas as Santas Missas celebradas naquele dia. A tarde, foi receber sue salário, idêntico ao que se costuma pagar na região. Voltava ele muito satisfeito, quando lhe veio ao encontro um desconhecido (era o próprio JESUS), que lhe perguntou qual o salário recebido por um dia tão bem empregado”.
E ao ficar informado da quantia, exclamou: “Tão pouco, por trabalho de tão grande mérito?! Volta a esse rico e dize-lhe que se não aumentar tua recompensa, seus negócios irão muito mal.” O homem com toda simplicidade deu o recado ao rico, e este lhe deu mais cinco moedas, despedindo-o em paz. O vinhateiro deu-se pro muito satisfeito com o aumento, mas JESUS não se contentou. Ao saber que o aumento fora somente de cinco moedinhas, disse: “Não basta, volta a esse ricaço e adverte-o que se não der melhor retribuição, pode esperar terrível desgraça.” Foi-se novamente o trabalhador, e um tanto embaraçado fez sua comunicação em meias palavras. O rico ouvi-o, e, tocado interiormente por DEUS, deu-lhe uma boa quantia para comprar uma roupa nova.
Admirais, sem dúvida, a atenção da Divina Providência socorrendo esse pobre vinhateiro, em retribuição à sua terna piedade de assistir diariamente à Santa Missa, e tender razão. Mais admirável ainda foi, porém, a graça que a soberana Misericórdia concedeu ao rico. Com efeito, na noite seguinte JESUS apareceu-lhe em sonho, e lhe revelou que, em consideração ás Santas Missas assistidas por aquele pobre trabalhador, poupava-o de uma morte súbita que naquela mesma noite devia precipitá-lo no Inferno.
A esta revelação espantosa, o rico despertou, arrependeu-se de sua vida pecaminosa, e tornou-se devotíssimo da Santa Missa que, daí em diante, passou a assistir ao Santo Sacrifício, todas as manhãs. Mais ainda, começou a encomendar diariamente muitas Santas Missas em diversas igrejas, e, enfim, depois de uma vida virtuosa, findou seu dia em feliz morte. Por aí vedes como é liberal a bondade de DEUS para aqueles que se mostram devotos da Santa Missa.

XXIX

Enéias Silvio Piccolomini, mais tarde Pio II, refere que em certa região da Alemanha havia um fidalgo de grande linhagem que, tendo caído na pobreza, vivia retirado em uma de suas terras. Aí acabrunhado pela melancolia, estava prestes deixar-se dominar pelo desespero, e satanás o impelia, cada dia, a pôr uma corda ao pescoço a fim de dar cabo da vida. Nesse combate contra a tristeza e a tentação, recorreu a um santo confessor, que lhe deu o excelente conselho de não passar, nem um dia, sem assistir à Santa Missa.
O fidalgo aceitou o conselho e logo o colocou em prática; e fez mais, para ficar seguro de nunca faltar à Santa Missa, tomou um capelão que devia estar pronto a oferecer, cada manhã, o Santo Sacrifício, a que ele assistia com grande fervor e devoção. Um dia, porém, o capelão dirigiu-se bem cedo a uma aldeia pouco afastada para assistir um padre recém-ordenado, que lá celebrava sua primeira Missa. O
fidalgo, receoso de ficar privado da Santa Missa naquele dia, dirigiu-se apressadamente para a tal aldeia. No caminho, porém, encontrou um camponês e este lhe disse que podia voltar dali, pois a Santa Missa do novo sacerdote já havia terminado, e que na aldeia não se celebraria outra. A esta notícia, o fidalgo perturbou-se e exclamou entre lágrimas: “Que vai ser de mim hoje?” O camponês, que nada podia entender de tão pungente aflição, replicou num tom de gracejo e ímpio ao mesmo tempo: “Não choreis, senhor, eu vos venderei a Missa que acabo de assistir. Dai-me o manto que trazeis e eu vo-la cedo.”
O gentil-homem aceitou a estranha proposta do camponês, e, entregando-lhe o manto, encaminhando-se para a Igreja. Fez uma curta oração no lugar santo, e voltou em seguida para casa. Mas, ao chegar ao sítio em que se detivera pouco antes, qual não foi seu espanto ao ver enforcado num carvalho, morto como Judas, o desgraçado camponês que lhe vendera sua Missa.
A tentação de suicídio passara do fidalgo ao camponês, que, privado do socorra que a Santa Missa lhe alcançara, não soubera resistir ao diabo. O fato acabou de convencer o bom fidalgo de quão eficaz era o remédio sugerido pelo confessor, e mais se firmou em sua resolução de assistir, todos os dias, à Santa Missa.
Duas coisas de grande importância eu quisera que notásseis neste terrível caso. Primeiro a grosseira ignorância de grande número de cristãos que, não sabendo apreciar as riquezas imensas na Santa Missa, vão a ponto de taxá-la por um preço material.

XXX

Por isso, nas antigas comunidades cristãs os fiéis, para a celebração da Santa Missa, tendo à frente o Papa, iam em procissão até o altar, vestidos com vestes de penitência e cantando a Ladainha dos Santos.
Na verdade, quando vamos à Santa Missa, devemos ir, repetindo com São Tomé: “Vamos, nós também, para morrermos com Ele!” (Jô 11, 16)
Quando Santa Margarida Maria Alacoque assistia à Santa Missa, e ficava olhando o altar, não deixava nunca de lançar um olhar para o crucifixo e para as velas acessas.
Para que?
Para que se imprimissem bem duas coisas na mente e no coração: o crucifixo fazia-lhe lembrar o que JESUS tinha feito por ela; e as velas acesas lhe recordavam o que ela devia fazer por JESUS, isto é, sacrificar-se e imolar-se por Ele e pelas almas.

XXXI

Nosso Senhor JESUS disse a Santa Matilde: “Pelo meu Sangue, venço a cólera de meu PAI e reconcilio o homem com o seu DEUS.” Isso se realiza principal e especialmente no Sacrifício da Santa Missa. O Seu Sacrifício na Cruz torna-se presente pela Santa Missa. Por isso, o preciosíssimo Sangue de CRISTO corre na Santa Missa como se saísse das Chagas de JESUS na Cruz.

XXXII

São as seguintes as palavras de JESUS a Maria Graf-Sutter: “Aqueles que se unem, sem cessar, ao meu Sacrifício na Cruz e oferecem a DEUS PAI, o meu Preciosíssimo Sangue pela salvação das almas, podem, de certo modo, explorar o meu Coração, porque têm poder sobre Ele. Eu purificarei as suas almas, lavando-as no meu Sangue.”
Se uma alma oferece ao meu PAI Celeste o Santo Sacrifício, com o sacerdote e através dele, com verdadeiro espírito de imolação, ela participa de todas as graças deste Sacrifício.”
Se assiste a uma Santa Missa, mas tendo no seu coração o desejo de oferecer muitas vezes a DEUS o Santo Sacrifício e, com esta pura intenção, se une a todos os sacerdotes da Santa Igreja, para oferecer com eles os meus sofrimentos, e a minha Morte, com esta perpétua oferta ela obterá perpetuamente graças. Com a minha Graça, esta alma unir-se-á a todas as Santas Missas celebradas no Mundo inteiro, e a sua vida tornar-se-á uma perpétua união de sacrifício coMigo e em Mim.”

XXXIII

Segundo São Lourenço Justiniano, “Nenhuma língua humana, pode contar os favores, que nascem, como de uma fonte, do Sacrifício da Santa Missa: o pecador que se reconcilia com DEUS, o justo que se torna mais justo, as culpas que são canceladas, os vícios que são erradicados, as virtudes e os méritos que crescem, as insídias de satanás que são confundidas.”
Os efeitos salutares, pois que cada Santa Missa produz na alma de quem dela participa, são admiráveis: obtém o arrependimento e o perdão das culpas, diminui a pena temporal devida por causa dos pecados, desarma o império de satanás e abranda os furores da concupiscência.
A Santa Missa também reforma os vínculos de nossa incorporação com JESUS CRISTO, preserva de perigos e desgraças, abrevia a duração do Purgatório e aumente o grau de glória no Céu.

XXXIV

Santa Teresa de Jesus dizia às suas filhas: “Sem a Santa Missa, que seria de nós? Tudo pereceria neste Mundo, pois somente ela pode deter o braço de DEUS.” Sem a Santa Missa, certamente a Igreja não teria durado até agora, e o Mundo já se teria perdido sem remédio. “Sem a Santa Missa, a Terra já teria sido aniquilada, há muito tempo, por causa dos pecados dos homens.”, ensinava Santo Afonso de Ligório. Segundo São Boaventura, “A Santa Missa, é a obra na qual DEUS coloca sob nossos olhos todo o amor que Ele nos tem; é, de certo modo, a síntese de todos os benefícios que Ele nos faz.”


quarta-feira, 3 de dezembro de 2014

EDITH STEIN E O SEGREDO DO NATAL


Uma reflexão natalina da filósofa judia que se converteu ao cristianismo e morreu mártir.”
Por Claudia Mancini, em Libertà e Persona
No recolhimento da abadia beneditina de Beuron, em 1932, três anos antes de entrar no carmelo, Edith Stein escreveu uma riquíssima meditação teológica sobre o Natal. O texto, pronunciado numa conferência da Associação de Acadêmicos Católicos de Ludwigshafen, na Renânia-Palatinado, Alemanha, foi publicado pela primeira vez em 1950, em Colônia.
Filósofa, judia, ateia, convertida, religiosa e mártir, essa mulher especial começa a meditação não com uma citação erudita, como quem se esforçasse por captar as atenções, e sim com uma reflexão que surpreende pela simplicidade; pela simplicidade de quem tem o olhar inclusivo da fenomenologia. Edith Stein destaca que o fascínio do Natal atinge a todos, mesmo os que pertencem a outras religiões e os não-crentes, para quem a antiga história do Menino de Belém não diz nada.
Nas semanas anteriores ao dia de Natal, "uma cálida corrente de amor inunda toda a terra", porque "todos preparam a festa e tentam irradiar um raio de alegria". É sempre apreciável o gesto de procurar e dar alegria, de preparar e de preparar-se para uma festa: são gestos estruturalmente humanos. Para o cristão, porém, especialmente para os cristãos católicos, a estrela que leva até a manjedoura é diferente. O coração de quem vive com a Igreja, desde o repicar do “Rorate Coeli” até os cantos do Advento, começa a bater em uníssono com a sagrada liturgia que emoldura um momento único: o tempo de uma espera que é também ardente nostalgia. Uma espera-nostalgia que cresce durante o Advento e encontra satisfação somente quando os sinos da Missa do Galo anunciam que "o Verbo se fez carne". Com este anúncio, vemo-nos sempre diante do fascínio do Menino na manjedoura, que estende as mãos e parece já dizer, sorrindo, o que mais tarde os seus lábios de Mestre repetirão até o último suspiro na cruz: "Segue-me".
Atenção: a Luz da estrela e o encanto do Menino na manjedoura duram um piscar de olhos. "À luz descida do céu, opõe-se, ainda mais escura, a noite do pecado". Diante do Menino, ao mesmo tempo, os espíritos se dividem em "contra" e "a favor". Diante do "segue-me", quem não é por Ele é contra Ele. Não por acaso, no dia depois do Natal, enquanto ainda ecoam os sons festivos dos sinos da noite e das festivas liturgias natalinas, a Igreja se desveste do branco de festa e se reveste do vermelho do sangue, e, no quarto dia, já usa o roxo do luto para recordar o primeiro mártir, Estêvão, e as crianças inocentes que foram mortas por Herodes. O que isto significa? Onde foi parar o encanto do Menino na manjedoura? Onde está o bem-aventurado silêncio da noite santa?
O mistério da noite de Natal escreve Edith Stein, carrega uma verdade grave e séria que o encanto da manjedoura não deve encobrir aos nossos olhos: "O mistério da encarnação e o mistério do mal estão intimamente unidos". A alegria do Menino e das figuras luminosas que se ajoelham em torno da manjedoura, das crianças inocentes, dos pastores esperançosos, dos reis humildes, dos mártires, dos discípulos, dos homens de boa vontade que seguem o chamado do Senhor, essa alegria, enfim, caminha de mãos dadas com a constatação de que nem todos os homens são de boa vontade; de que a paz não alcança "os filhos das trevas"; de que, para esses, o Príncipe da Paz "traz a espada"; de que, para esses, Ele é a "pedra de tropeço" que os derruba. Aquele Menino divide e separa, porque, enquanto o contemplamos, Ele nos impõe uma escolha: "Segue- me". Ele a impõe a nós também, hoje, e nos coloca diante da decisão entre a luz e a escuridão. As mãos do Menino "dão e exigem ao mesmo tempo".
Se colocarmos as nossas mãos nas do Menino Deus e respondermos "sim" ao seu "Segue-me", o que recebemos?
"Oh, maravilhoso intercâmbio! O Criador da humanidade nos dá, assumindo um corpo, a sua divindade!". Aqui reside a grandeza do mistério da Encarnação: quem escolhe a luz, quem fica do lado do Menino, "abre caminho para que a sua vida divina se derrame sobre nós" e traz "de forma invisível o Reino de Deus dentro de si". O Natal é o começo da aventura de deixar a graça "permear de vida divina toda a vida humana". Por que Deus se fez homem? Deus se tornou um filho do homem para que os homens se tornem filhos de Deus. Escreve Edith Stein: "Um de nós tinha rasgado o vínculo da filiação divina; um de nós tinha que reatá-lo e pagar pelo pecado. Mas nenhum descendente da antiga progênie, doente e bastarda, tinha condições de fazê-lo. Era preciso enxertar-lhe um ramo novo, saudável e nobre". Estas palavras de Edith Stein evocam, por analogia óbvia, uma passagem do "Cur Deus Homo", de Santo Anselmo, que contém a mesma lógica da redenção: "a restauração da natureza humana não teria acontecido se o homem não tivesse pagado a Deus o que lhe devia pelo pecado. Mas a dívida era tão grande que a satisfação, de obrigação apenas do homem, mas possível somente a Deus, precisava ser dada por um homem-Deus" (CDH 2,6).
Edith Stein tinha aprendido, na escola dos professores do carmelo, Teresa de Ávila e João da Cruz em particular, que a graça se desenvolve em nós como uma semente que nos transforma, deixando-nos participar da própria vida de Deus. Por esta razão, a meditação seguinte insiste nos sinais fundamentais de uma vida humana unida a Deus.
O primeiro sinal da filiação divina é "ser um só com Deus". O Menino desceu ao mundo para ser um "corpo misterioso" conosco: "ele é a nossa cabeça, nós os seus membros". Não existimos mais "um ao lado do outro, como pessoas isoladas, autônomas, e sim, todos juntos, como uma só coisa com Cristo". O segundo sinal da filiação divina é "ser um só em Deus": "Se, no corpo místico, Cristo é o corpo e nós os membros, então somos membros uns dos outros e, todos juntos, somos um só em Deus". A medida do nosso amor a Deus é o nosso amor para com o próximo, "seja parente ou não, seja-nos simpático ou não, seja moralmente digno da nossa ajuda ou não; quem ama com o amor de Cristo, ama a humanidade por Deus e não por si". O terceiro sinal da filiação divina é a disponibilidade para aceitar qualquer coisa da mão de Deus: o "faça-se a tua vontade!", em toda a sua extensão, deve ser o critério da vida cristã. Ele deve permear a jornada da manhã até a noite, o curso do ano e de toda a vida. "Deve ser a única preocupação do cristão. Todas as outras o Senhor toma para si".
À luz e ao calor da noite santa, quando mal começamos a nos confiar ao Menino, apertamos confiantes a sua mão e vemos com clareza o que devemos fazer ou não fazer. Mas a situação não ficará assim para sempre. Quem vê o encanto do Menino na noite santa não pode fingir que não percebe que o caminho que parte de Belém conduz ao Gólgota, vai da manjedoura até a cruz. "Quem pertence a Cristo deve viver toda a sua vida". A noite de Natal e a noite da cruz são uma única noite. Chegará o tempo do sofrimento e da morte para cada homem. Quando ele vier, a confiança em Deus permanecerá firme? Estaremos dispostos a aceitar qualquer coisa da sua mão? Seremos ainda capazes de dizer "faça-se a tua vontade", mesmo na "noite escura", quando a luz divina já não brilhar e a voz do Senhor silenciar? Os mistérios do cristianismo são um todo indivisível. Quem se aprofunda em um, acaba por tocar os outros todos, escreve Edith Stein. Sobre o luminoso esplendor da manjedoura paira a sombra da cruz. A luz da noite santa se apaga na escuridão da Sexta-feira Santa, mas volta a brilhar mais forte na manhã da ressurreição. O Filho encarnado de Deus, através da cruz e da paixão, chega até a glória da ressurreição. É assim que cada homem deve sofrer e morrer. Se for um membro vivo do Corpo de Cristo, porém, o seu sofrimento e a sua morte se tornarão, graças à divindade da Cabeça do corpo, redentores: "Cada um de nós, toda a humanidade, chegará, com o filho do homem, através do sofrimento e da morte, até a mesma glória". E o Salvador, sabendo que somos homens em luta diária com as nossas fraquezas, vem em nosso auxílio com aqueles que Edith Stein chamava de "meios de salvação": "estar todos os dias em relação com Deus" através da escuta da Palavra, da oração litúrgica e interior, da vida sacramental. Mas é principalmente para o "Salvador eucarístico" que precisamos abrir espaço, para podermos transformar a nossa vida na dele. Assim como o corpo terreno precisa do pão de cada dia, assim também a vida divina aspira em nós a ser alimentada continuamente: "Em quem realmente faz dele o seu pão de cada dia, cumpre-se diariamente o mistério do Natal, a encarnação do Verbo". E esta é, sem dúvida, a maneira mais segura de manter ininterrupta a união com Deus e de enraizar-se todos os dias e cada vez mais firmemente no corpo místico de Cristo.
Edith Stein escreveu vinte páginas de meditação sobre o Natal, densíssimas, para lembrar que os mistérios do cristianismo são um todo indivisível, porque todos são mistérios portadores de salvação. Encarnação, cruz e ressurreição são inseparáveis. Só porque verdadeiramente o Filho, e nele o próprio Deus, "se fez carne", é que Ele poderia morrer e ressuscitar, arrebatando-nos da morte e nos abrindo um futuro em que esta "carne", a nossa existência terrena, entrará na eternidade do Reino de Deus. Celebramos o Natal como um convite a nos deixar transformar por Aquele que entrou em nossa carne, que se uniu a nós e nos uniu a si, para permear de vida divina toda a vida humana.
Que o mistério da noite de Natal nos lembre que algo extraordinário acontece mediante a encarnação: a carne se torna o instrumento da salvação.
"Verbum caro factum est": o Verbo se fez carne, escreve João Evangelista, e um autor cristão do século III, Tertuliano, afirma: "Caro salutis est cardo", a carne é o eixo da salvação. "Se a alma se torna totalmente de Deus, é a carne que o torna possível! A carne é batizada para que a alma seja purificada; a carne é ungida para que a alma seja consagrada; a carne é marcada pela cruz para que a alma fique incólume; a carne é coberta pela imposição das mãos para que a alma seja iluminada pelo Espírito; a carne se nutre do Corpo e do Sangue de Cristo para que a alma se sacie de Deus. Elas não serão, pois, separadas no dia da recompensa, porque estiveram unidas durante as obras" (De carnis resurrectione, 8,3: PL 2,806).

terça-feira, 2 de dezembro de 2014

SÃO JUSTINO de ROMA (sec II): LITURGIA DOMINICAL (RELATOS sobre a SANTA MISSA)



Depois da primeira iniciação (clique aqui), recordamos constantemente entre nós essas coisas e aqueles de nós que possuem alguma coisa socorrem todos os necessitados e sempre nos ajudamos mutuamente. Por tudo o que comemos, bendizemos sempre ao Criador de todas as coisas, por meio de seu Filho Jesus Cristo e do Espírito Santo. 
No dia que se chama do sol, celebra-se uma reunião de todos os que moram nas cidades ou nos campos, e aí se lêem, enquanto o tempo o permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas. 
Quando o leitor termina, o presidente faz uma exortação e convite para imitarmos esses belos exemplos. Em seguida, levantamo-nos todos juntos e elevamos nossas preces. Depois de terminadas, como já dissemos, oferece-se pão, vinho e água, e o presidente, conforme suas forças, faz igualmente subir a Deus suas preces e ações de graças e todo o povo exclama, dizendo: "Amém". 
Vem depois a distribuição e participação feita a cada um dos alimentos consagrados pela ação de graças e seu envio aos ausentes pelos diáconos. 
Os que possuem alguma coisa e queiram, cada um conforme sua livre vontade, dá o que bem lhe parece, e o que foi recolhido se entrega ao presidente. Ele o distribui a órfãos e viúvas, aos que por necessidade ou outra causa estão necessitados, aos que estão nas prisões, aos forasteiros de passagem,
numa palavra, ele se torna o provedor de todos os que se encontram em necessidade. 
Celebramos essa reunião geral no dia do sol (Domingo), porque foi o primeiro dia em que Deus, transformando as trevas e a matéria, fez o mundo, e também o dia em que Jesus Cristo, nosso Salvador, ressuscitou dos mortos. Com efeito, sabe-se que o crucificaram um dia antes do dia de Saturno e no dia seguinte ao de Saturno, que é o dia do Sol, ele apareceu a seus apóstolos e discípulos, e nos ensinou essas mesmas doutrinas que estamos expondo para vosso exame.

SÃO JUSTINO de ROMA (sec II): RELATOS sobre a SANTA MISSA - TEOLOGIA da EUCARISTIA


Este alimento se chama entre nós Eucaristia, da qual ninguém pode participar, a não ser que creia serem verdadeiros nossos ensinamentos e se lavou no banho que traz a remissão dos pecados e a regeneração e vive conforme o que Cristo nos ensinou. 
De fato, não tomamos essas coisas como pão comum ou bebida ordinária, mas da maneira como Jesus Cristo, nosso Salvador, feito carne por força do Verbo de Deus, teve carne e sangue por nossa salvação, assim nos ensinou que, por virtude da oração ao Verbo que procede de Deus, o alimento sobre o qual foi dita a ação de graças - alimento com o qual, por transformação, se nutrem nosso sangue e nossa carne - é a carne e o sangue daquele mesmo Jesus encarnado. 
Foi isso que os Apóstolos nas Memórias por eles escritas, que se chamam Evangelhos, nos transmitiram que assim foi mandado a eles, quando Jesus, tomando o pão e dando graças, disse: "Fazei isto em memória de mim, este é o meu corpo". E igualmente, tomando o cálice e dando graças, disse: "Este é o meu sangue", e só participou isso a eles. 
E certo que isso também, por arremedo, foi ensinado pelos demônios perversos para ser feito nos mistérios de Mitra; com efeito, nos ritos de um novo iniciado, apresenta-se pão e uma vasilha de água com certas orações, como sabeis ou podeis informar-vos.

O INÍCIO DO FRANCISCANISMO E OS DESAFIOS NO SEU PRIMEIRO SÉCULO DE EXISTÊNCIA !!!


por Frei Miguel Negreiros, OFMCap
(in “Cadernos de Espiritualidade Franciscana”, nº 6, pp. 17-26)
Se é verdade que falar em Franciscanismo é falar em São Francisco, assim como falar em Cristianismo é falar em Jesus Cristo, também é verdade que há uma história do Franciscanismo, para além da pessoa de São Francisco. Foi-me pedido que tratasse do 1º século da história do Franciscanismo. Vou dividir a minha exposição em três partes: antes, durante e depois de São Boaventura. A primeira parte abrange o período que vai da simples fraternidade primitiva até à estruturação da Ordem. A segunda parte coincide com o generalato de São Boaventura. A terceira compreende o tempo que se segue até à ruptura dos "Espirituais".
1 - DA SIMPLES FRATERNIDADE À ESTRUTURAÇÃO DA ORDEM
Por influência dos Ministros e dos Irmãos letrados, bem como dos privilégios concedidos pela Santa Sé, a Ordem Franciscana, logo após a morte de São Francisco, entrou numa fase de forte organização interna que já não se compadecia com a simplicidade da vida inicial. No ano seguinte à morte de São Francisco, no Capítulo de 1227, foi eleito Geral o Ministro Provincial de Espanha, Frei João Parente, que procurou harmonizar a fidelidade ao genuíno espírito de São Francisco com as aspirações e reivindicações dos letrados. Muitos irmãos se assustaram com as mudanças e o encaminhamento da Ordem que tendia para uma clericalização e isenção da mesma, frente à hierarquia. Cresceu entre eles o temor de infidelidade à Regra de São Francisco. É que os irmãos inovadores pretendiam uma interpretação da Regra, sancionada pela autoridade da Igreja, a fim de a melhor compreender e observar. Não compreendiam em que medida estavam "obrigados" a observar o Evangelho, e como era possível compaginar a pobreza absoluta com a necessidade de possuir alguns bens imprescindíveis para o progresso da Ordem. Para este progresso, os letrados esbarravam com duas dificuldades: o Testamento de São Francisco e a oposição secular. É nesta altura que aparece a Bula "Quo Elongati" de Gregório IX, em 1230, como primeira Declaração Pontifícia da Regra. Esta Bula deixou a muitos irmãos desapontados por lhes parecer que estavam a desviar-se da simplicidade do ideal evangélico, tal como São Francisco o tinha consignado na Regra e exposto no Testamento. A Bula, com efeito, declarava que o Testamento não tinha força obrigatória; os Irmãos só estavam obrigados aos conselhos evangélicos expressos na Regra; podiam recorrer aos "amigos Espirituais"; os Irmãos apenas tinham o simples "uso de facto". No ano seguinte a Bula "Nimis iniqua" declara a isenção dos irmãos da jurisdição episcopal.
1.1. A evolução incrementada por Frei Elias
Frei João Parente não foi capaz de conter as exigências revolucionárias dos Ministros e letrados, e veio a suceder-lhe de novo Frei Elias, no Capítulo Geral de 1232. Frei Elias exerceu uma influência decisiva na evolução da Ordem. Muito contestado pelos zelosos observantes da Regra, conseguiu instaurar os estudos e organizar as Missões do Oriente. Empenhou-se em estruturar e engrandecer a Ordem para que esta pudesse rivalizar com as outras grandes Ordens, particularmente com a Beneditina. Decidiu apresentar à Igreja e ao mundo um São Francisco nimbado de glória, e levantou-lhe uma grande Basílica. Para este projeto não teve dificuldade em conseguir toda a espécie de apoios. O próprio Gregório IX, que era, aliás, um grande amigo pessoal e admirador de São Francisco, apadrinhava este empreendimento. Pelo seu carácter absorvente e centralizador, provocou o descontentamento de muitos Provinciais que logo trataram de depô-lo no Capítulo seguinte. Assim, no Capítulo Geral de 1239 foi eleito, em vez de Frei Elias, o Provincial de Inglaterra, Frei Alberto de Pisa. Para obviar aos inconvenientes do absolutismo de Frei Elias, promulgaram-se as primeiras "Constituições" que regulavam a vida dos Irmãos, especialmente dos Irmãos Ministros, e concretamente do Irmão Ministro Geral. Os Capítulos passam a ser a autoridade máxima da Ordem. Em termos de hoje poderíamos dizer que se repôs o espírito democrático. Poucos meses depois, morre Frei Alberto de Pisa e sucede-lhe um mestre da Universidade de Paris, Frei Haymón de Faversham que havia sido a alma do Capítulo de 1239. Foi um verdadeiro precursor de São Boaventura e soube valer-se das experiências positivas dos Irmãos de São Domingos, como por exemplo, no que se refere ao Capítulo dos "definidores".
1.2. - Consequências desta primeira evolução
O movimento de renovação e atualização da Ordem, desencadeado pelos inovadores e apoiado por Frei Elias, fez com que a Ordem se tornasse na primeira força religiosa da Igreja, respaldada pela proteção dos Papas. Ficavam para trás, como saudosas recordações, as experiências heroicas da aventura evangélica dos primeiros companheiros. À simplicidade austera dos primeiros tugúrios verdadeiramente pobrezinhos, e à espontaneidade das relações fraternas dos primeiros irmãos, sucedia-se a centralização nas grandes cidades, com espaçosos conventos. À pobreza, cheia de confiança na Divina Providência, à semelhança das aves do céu e dos lírios dos campos (Mt 6, 25 ss) sucedia a preocupação de obter meios mais estáveis de vida. A organização dos estudos transformou-se numa fortaleza académica. A esmola perde o significado primitivo e substitui o trabalho manual como meio normal de subsistência. Os trabalhos mais humildes são entregues a criados seculares. O regime interno da Ordem adopta o estilo da vida monástica, e entra-se numa administração cada vez mais necessitada de novas justificações jurídicas para poder dispor de dinheiro.
1.3. - A Bula "Ordinem Vestrum"
De novo recorrem ao Papa e obtém de Inocêncio IV a Bula "Ordinem Vestrum" (1245) que permite o recurso aos "amigos espirituais" para as diversas transações pecuniárias e declara que os bens da Ordem são por direito propriedade da Santa Sé, que os administra através de um "procurador". O breve "Quanto Studiosius" que veio pouco depois, alargava mais o poder dos Provinciais em ordem à administração dos bens, através de "homens de confiança" nomeados por eles. O preceito da Regra que dizia "os Irmãos de nada se apropriem" que para São Francisco tinha um sentido nitidamente evangélico, passa a ser interpretado só juridicamente, transformando a pobreza real numa pobreza legal. Com a distinção entre direito de propriedade e simples uso de fato ficava ressalvada a pobreza à face da Lei, mas a Dama Pobreza corria o risco de ser ultrajada com o pecado da infidelidade. Viviam ainda alguns dos primeiros companheiros de São Francisco e a própria Santa Clara que continuamente recordavam a heroicidade da pobreza dos primeiros anos. Gerou-se, então, um movimento de irmãos que reclamavam o direito de viver "espiritualmente" a Regra e por isso se denominaram "Espirituais". Não viam possibilidade de conciliar a fidelidade genuína à Regra com as concessões das Bulas Papais. Ao mesmo tempo, outros irmãos também queriam ser fiéis a São Francisco e à sua Regra, embora aceitando a evolução que consideravam irreversível e a orientação oficial da Ordem. Estes constituíram o grupo chamado da "Comunidade", que funcionavam a modos de uma ala esquerda em confrontação com a ala de extrema direita dos "Espirituais".
1.4. - A Política de Centro ou a Via Intermédia de Crescêncio de Lesi (1244-47)
O Ministro Geral que se segue, Crescêncio de Lesi, de novo recorre à Bula Papal "Ordinem Vestrum" a que já fizemos referência, o que veio a desgostar tanto os "Espirituais" como grande parte dos da "Comunidade". A sua preocupação de manter o meio termo entre uns e outros desgostou, sobretudo os inovadores. Deu-se conta de que a memória de São Francisco ainda era catalizadora e mobilizadora da vocação de todos os irmãos e por isso encarregou Tomás de Celano de escrever uma Segunda Vida de São Francisco que recolhesse todos os dados referentes à vida do Santo Fundador. Tomás de Celano escreveu esta Segunda Vida com preocupações de pacificação e de crítica aos exageros de ambas as partes. Apesar de tudo isto este Geral não conseguiu restabelecer a paz. Vai-lhe suceder João de Parma.
1.5. - O Regresso às Origens (fontes) com João de Parma (1247-57)
João de Parma, eleito no Capítulo Geral de Lião, foi bem recebido por todos, dado o seu prestígio de homem de ciência e de virtude. No seu governo privilegiou o exemplo e a virtude mais do que a ciência. Dele disse Frei Gil: "chegaste em boa hora mas já vens tarde". Tudo fez para se retomar o fervor primitivo e garantir a fidelidade às antigas tradições. Não fez caso das concessões das Bulas Papais. Na luta contra os inimigos de fora aconselhava humildade e mansidão. Insistia na observância da Regra e do Testamento. Embora bem aceite por todos, havia alguns descontentes, por lhes parecer que a Ordem assim não avançava. Acabou por renunciar, também por indicação do Papa Alexandre IV, retirando-se para o eremitério de Greccio, mas recomendou que elegessem para Geral a Boaventura de Bagnoregio, que então era Mestre em Paris.
2 - A ORDEM DURANTE O GENERALATO DE SÃO BOAVENTURA (1257-74)
Não falta quem considere São Boaventura um "Segundo Fundador". E há até quem o acuse de ter desvirtuado a obra de São Francisco. Na verdade, não foi nem uma coisa nem outra. Aceitou a Ordem na sua evolução normal e procurou dinamizá-la com a observância comum da Regra.
2.1. - A Ordem em conflito com algumas forças da Igreja
São Francisco havia ensinado que os Irmãos Menores deviam ser sempre submissos aos Bispos e aos sacerdotes. Bastantes destes, porém, desde o princípio que não viam com bons olhos a autorização concedida pelos Papas aos Franciscanos de exercerem a cura de almas, a ponto de o Papa Gregório IX ter saído em sua defesa. A própria Universidade de Paris se ergueu como adversário da Ordem porque os mestres seculares de Sorbona, capitaneados por Guilherme de Saint'Amour, não queriam aceitar os Dominicanos e Franciscanos como Catedráticos na Universidade. Negavam aos mendicantes o direito de professar a santa pobreza (ensinavam que a mendicância era contrária ao Evangelho), o direito de exercer o ministério pastoral e até o direito de existirem. São Boaventura saiu em defesa da Ordem com os seus dois Tratados:
a) Questões de perfeição evangélica" e,
b) "Apologia dos pobres".
Nos quais estabelece os seguintes princípios:
1. A pobreza voluntária é o mais alto grau de perfeição evangélica.
2. Têm direito a pregar e a ensinar o Evangelho, sobretudo àqueles que o praticam.
3. A pregação é um direito que os irmãos receberam do Papa que é o primeiro pastor próprio de todos os fiéis.
4. Os irmãos têm o direito a viver do Evangelho, isto é, têm direito a mendigar.
2.2. - O Governo Interno da Ordem
Além dos adversários externos, São Boaventura teve de enfrentar outros inimigos, talvez mais fáceis, que se encontravam dentro da Ordem: o movimento dos "Espirituais". Procurou fazer ver a estes que a fiel observância espiritual da Regra - da qual ele por sinal era modelo - era compatível com a evolução da Ordem. Durante o seu generalato adoptou os seguintes critérios que apresentou como orientações dos irmãos:
1. Os Irmãos podem ficar tranquilos com a interpretação da Regra feita pelo Papa, porque este é o pastor supremo da Igreja e da Ordem.
2. São Francisco é o modelo para todos, é a forma dos menores. E por isso ele escreveu a Legenda Maior como biografia oficial da Ordem, apresentando São Francisco como cópia fiel de Cristo crucificado. Afasta-se, no entanto, dos "Espirituais" na interpretação do ideal de minoridade, nomeadamente no que se refere ao trabalho, à insegurança evangélica, ao receio dos estudos, à espontaneidade, etc.
3. A observância regular deve antes de mais ser fiel ao espírito de pobreza que é a maior glória e a principal característica da Ordem. Não foi favorável às mitigações das Bulas Pontifícias, embora aceitando os "procuradores" da Santa Sé. Foi rigoroso em não aceitar dinheiro, mas permitiu algumas discretas provisões de esmolas. Os conventos grandes deviam estar nas cidades.
4. Os estudos e a ciência são necessários aos franciscanos como condição de preparação para poderem pregar.
5. A ação apostólica faz parte essencial da Ordem. Devem-se estabelecer acordos com os Bispos e os párocos, em espírito de minoridade.
6. Só se devem aceitar, no campo do apostolado, os privilégios concedidos a toda a Ordem e não os concedidos a favor de uma Província ou de um religioso.
7. A legislação das Constituições de Narbona, promulgadas no Capítulo Geral de 1260, nada de novo introduzem na vida interna dos Irmãos. O Capítulo Geral continua a ser a máxima autoridade da Ordem.
8. O "Joaquinismo" (Doutrina de Joaquim di Fiore, que um pouco mais à frente explicaremos) foi implacavelmente reprimido.
São Boaventura, durante os 17 anos do seu governo, foi aceite praticamente por todos, devido ao prestígio do seu saber e da sua virtude. Soube harmonizar, com muito tato e equilíbrio, o amor a São Francisco e ao progresso da Ordem; o apreço pelos eremitérios retirados e a aceitação dos grandes conventos nas cidades. Sob a sua orientação, a Ordem sentiu-se internamente segura, exteriormente admirada, e muito apreciada pela Santa Sé que lhe confiava missões importantes.
2.3. - Nova Luta e Nova Defesa da Ordem pela Santa Sé
São Boaventura participou na preparação do Segundo Concílio de Lião e veio a falecer, já Cardeal, durante o mesmo Concílio. Vários padres conciliares propuseram a supressão de todas as Ordens aparecidas após o IV Concílio de Latrão. O Papa Gregório X respondia-lhes: "Vivei como eles vivem, estudai como eles estudam e obtereis os mesmos resultados".
Entretanto, após a morte de São Boaventura, sucederam-lhe Jerónimo de Ascoli e Bonagrazia de São João. A pedido do Geral, o Papa Nicolau III interveio em defesa da Ordem com a Bula "Exiit qui seminat" (1279), retomando toda a argumentação de São Boaventura, pondo em destaque a distinção entre uso de direito e uso de fato. O "uso de fato" é o único permitido e tem de ser um uso pobre. O Sumo Pontífice proibia severamente que alguém falasse ou escrevesse contra os Menores e a sua Regra. Foram depois permitidos os "síndicos apostólicos" como procuradores seculares dos religiosos. Assim uma vez mais se solucionava juridicamente o problema da fidelidade à pobreza.
2.4. - A Discussão à volta dos Privilégios
O Padre Geral Bonagrazia, que tinha obtido do Papa a Bula de defesa da Ordem, recomendava aos seus frades que evitassem toda a polémica com o clero secular. A discussão agora se travava acerca dos privilégios concedidos pelos Papas que autorizavam os Franciscanos a confessar e a pregar, sem necessidade de licença dos Bispos ou dos párocos. Os Bispos Franceses uniram-se para contestar, com decisão e firmeza, os privilégios concedidos pelas Bulas Pontifícias de Martinho IV (1281-85), Honório IV (128587) e Nicolau IV (que tinha sido o Geral que sucedeu a São Boaventura). Bonifácio VIII (1294-1303) com a Bula "Supra Cathedram" procurou determinar sabiamente a relação entre os frades e o clero secular. Os frades, porém, entenderam que tinham sido prejudicados. Sucedeu-lhe Bento XI (1303-04) que de novo foi mais favorável aos religiosos. Isto suscitou nova contenda na qual tomou parte o célebre João Duns Escoto, a defender a posição do Papa. Veio pouco depois o Concílio de Viena (1311-12), em que ficou definida a isenção dos religiosos. Internamente estes apenas devem obediência ao Papa. Enquanto à atividade apostólica fora das suas Igrejas, dependerão dos Bispos e dos sacerdotes seculares.
3 - A QUESTÃO DOS ESPIRITUAIS
3.1. - A influência do Joaquinismo
Após a morte de São Boaventura, estalou violentamente a questão dos "Espirituais" que transpôs o limiar das fronteiras do franciscanismo para se transformar num fenómeno de âmbito eclesial. A primeira confrontação dos religiosos zelantes contra os da "Comunidade" já se tinha verificado durante o governo de Crescêncio de Lesi, vindo progressivamente a avolumar-se até que atingiu proporções de autêntica insurreição, de separação da Ordem e de rebelião contra a Sé Apostólica. A Fundamentação teológica da corrente dos Espirituais encontra-se, de certo modo, na concepção escatológica do Abade Joaquim de Fiore (+ 1202), segundo o qual a história da salvação divide-se em três épocas: a do Pai, a do Filho e a do Espírito Santo. A primeira, a do Pai, que vai de Adão a Cristo, é dirigida pela ordem dos casados ("Ordo conjugatorum"). A segunda, a do Filho, que vai desde Cristo até ao tempo do autor, é dirigida pela ordem dos clérigos ("Ordo clericorum"). A terceira, a do Espírito Santo, deve ser dirigida pela ordem dos monges ("Ordo monachorum"). O Pai impôs a Lei pelo temor. O Filho escolheu a disciplina porque é sabedoria. O Espírito Santo desencadeou a liberdade porque é amor. Com esta terceira etapa foi superada e ultrapassada a igreja da hierarquia, com os seus sacramentos e as suas leis, e foi instaurada a Igreja espiritual: assembleia de alegria, de amor e de liberdade, composta por homens espirituais, pobres e menores, verdadeiros modelos de vida cristã que terão por pastor e guia um Santo Padre, o Pontífice Angélico. Esta etapa será anunciada pela aparição do "Anjo do Sexto Selo" que ostentará "o sinal do Deus vivo" e será portador do Evangelho eterno para todos os povos. Estas ideias penetraram dentro da ala direita da Ordem Franciscana através do livro "Introdução ao Evangelho Eterno" de Gerardo de Borgo San Donnino (+ 1276). Muitos dos "Espirituais" viram em São Francisco o "Anjo do Sexto Selo", assinalado com os estigmas e portador do "Evangelho eterno", que seria a Regra. Entenderam que os franciscanos seriam esses "homens espirituais" destinados a instaurarem a nova ordem, e a nova Igreja espiritual, sob o sinal da pobreza. Os "Espirituais" passam agora a ser os que, pertencendo à Igreja espiritual, se opõem à hierarquia, adquirindo assim esta denominação um novo sentido.
3.2. - As principais figuras dos Espirituais
Durante o Concílio de Lião, surgiu na Província das Marcas um movimento que hoje chamaríamos de “Objetores de Consciência” que preconizava a desobediência ao Papa, por julgarem que este ia obrigar os franciscanos a possuir bens em comum. Entre os rebeldes destacaram-se Pedro de Macerata (+ 1307) e o famoso Ângelo Clareno (+ 1337). Outra campanha dos Espirituais desencadeou-se na região da Provença, e teve como principal corifeu Pedro João Olivi (+ 1298), teólogo eminente e tido por santo. Foi o verdadeiro chefe ideológico do movimento revolucionário. Opunha-se, sobretudo, à doutrina do "uso pobre" da Bula "Exiit qui seminal". O Papa Nicolau IV, juntamente com o Geral Mateus de Acquasparta procedeu duramente contra eles. Mas quando foi eleito Celestino V (1287-89), que era um santo monge, viram nele o "Papa Angélico" das profecias de Joaquim di Fiore e sentiram-se protegidos por ele. Veio logo a seguir Bonifácio VIII que excomungou Ângelo Clareno e demitiu o Geral Gaufredi (1289-95) que os protegia. Nos ataques contra o Papa distinguiu-se outro grande chefe dos Espirituais, da região da Toscana, Ubertino de Casale (+ 1329) homem douto e contemplativo mas também algo visionário, que pregava contra a "Igreja carnal".
3.3. - Nova discussão e a Bula "Exivi" (1309-12)
Clemente V (1305-14) quis ser mais suave que Bonifácio VIII e foi condescendente para com os Espirituais. Nomeou uma comissão de Cardeais para levar a cabo uma investigação imparcial. Foram convocados religiosos representantes das duas facções. A princípio, parecia que tudo seria favorável aos Espirituais, mas foram os da Comunidade que ao fim viram reconhecidas as suas razões. A Bula "Exivi de Paradiso" (1312) estabelece o grau de obrigatoriedade de cada um dos preceitos da Regra. Nela haveria 27 preceitos graves; doze exortações; seis conselhos e doze condições para admissão de noviços. A intenção era de sossegar as consciências. Mas não foi possível evitar a separação.
3.4. - Ruptura (1312-18)
O Papa tudo fez para pacificar a Ordem e tomou a seu cuidado a proteção dos Espirituais. O próprio Geral esforçou-se por corrigir todos os abusos contra a pobreza e demitiu todos os superiores que haviam sido demasiado duros para com os Espirituais. Tudo foi inútil. Era demasiado profundo o fosso cavado entre os dois grupos. Em vários sítios apareceram comunidades cismáticas dos Espirituais, particularmente na Toscana, na Sicília e na Provença. Bastantes deles foram encarcerados e outros excomungados por João XXII, que com a Bula "Sancta Romana" (1317) condenava os Espirituais de qualquer denominação. Não faltaram sequer as prisões perpétuas e as condenações à fogueira. Ubertino de Casale passou a viver com os Beneditinos mas quis conservar-se franciscano até à morte. Ângelo Clareno, refugiado no monte Subiaco constituiu-se Geral dos "Irmãos de vida pobre" (Fraticelli della povera vita). No seu livro "Apologia pro Vita sua", faz a sua declaração de amor à Regra de São Francisco e de fé na Igreja, a quem se sente unido pelo Espírito Santo, embora condenado pela autoridade hierárquica. Tanto Ângelo Clareno como Ubertino de Casale quiseram ser reformadores autónomos e legitimamente reconhecidos, não o tendo, porém, conseguido. Os Clarenos, continuadores dos "fraticelli" aceitaram os Visitadores apostólicos enviados por Martinho V, São João Capistrano e Santiago da Marta. Vieram mais tarde a reconciliar-se com a Igreja sob os pontificados de Eugénio IV (1413-17) e de Sixto IV, que em 1473 os colocou sob a obediência do Ministro Geral da Ordem. Em 1517 integraram-se totalmente nos Irmãos da "Observância".
CONCLUSÃO
O último decénio da vida de São Francisco já tinha sido decisivo para a fisionomia da nova Ordem, mas não há dúvida que foi o primeiro século que se lhe seguiu que acabou por dar à Ordem uma organização mais estruturada.
A caminhada foi árdua e difícil. A tensão, que já no tempo de São Francisco tinha aflorado entre as exigências dos irmãos letrados e a simplicidade dos primeiros companheiros agravou-se após a morte de São Francisco, por causa da interpretação da Regra e da observância da pobreza. A luta entre os "Espirituais" e os da "Comunidade" que trouxe à Ordem muitos dissabores e deserções, foi providencial para se clarificar, à luz do magistério da Igreja, qual o rumo que a Ordem devia seguir.
Era urgente discernir qual era o verdadeiro espírito da Regra e nomeadamente o da pobreza. Foi o que se conseguiu com sangue suor e lágrimas! A luta travada naquele primeiro, século vai agora prolongar-se nos séculos seguintes, pelos mesmos motivos, entre os Irmãos da "Observância" e os Irmãos "Conventuais", aos quais se virão juntar, já no século XVI, os Irmãos "Capuchinhos".

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REFLEXÕES: São Francisco e a Irmã Pobreza

  1. São Francisco de Assis (1182-1226), fundador da ordem franciscana, que ele nunca teve a intenção de fundar uma ordem de estudiosos, catedráticos, doutores ou intelectuais. Ele apenas acolhia aqueles que desejavam viver como ele, isto é, viver segundo o Evangelho. Francisco apresentava um ideal de vida, uma ideia de comunidade voltada para a prática da caridade, da pregação da palavra divina, ou seja, um ideal de vida itinerante marcado pela pobreza material, um estilo de vida semelhante à vida de Cristo, dos Apóstolos e dos primeiros cristãos.
NOTA: DE BONI, Luis Alberto. De Abelardo a Lutero: estudos sobre filosofia prática na Idade Média. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003. p. 216. (COLEMAN, Janet. A History of Political Thought. From the Middle Ages to the Renaissance. Oxford: Blackwell Publishers, 2000.. p. 77).

  1. Francisco de Assis foi um homem profundamente evangélico e não um intelectual, nem propôs o saber como missão essencial de evangelização para seus membros. Mas soube imprimir tal dinamismo espiritual e evangélico em seus seguidores que foi capaz de criar um estilo peculiar de viver, de habitar no mundo e de interpretar a própria vida e o que acontece nela e, a partir daí, a elaboração de um sistema filosófico-teológico característico da família franciscana.
NOTA: MERINO, Jose Antonio. Historia de la filosofia franciscana. Madrid: BAC, 1993. p. 17.

  1. A Ordem dos Frades Pregadores (Ordo Fratum Praedicatorum), mais tarde conhecida como Ordem Dominicana, foi fundada por Domingos de Gusmão (1170-1221), por volta do ano de 1215. O principal objetivo dessa ordem era o combate das heresias através da pregação. Nesse sentido, “para ser bem sucedido na pregação, Domingos pensou que seria vital ser visto como um exemplo por viver uma vida simples, na perfeição apostólica”.
NOTA-1: Cf. FRAILE, Guillermo; URDAÑOZ, Teofilo. Historia de la filosofía. Filosofía judía y musulmana. Alta escolástica: desarrollo y decadencia. Madrid: BAC, 1986. p. 224.
NOTA-2: “To succeed in preaching, Dominic thought it vital to be seen as setting an example by living a simple, more apostolic life than that of the church’s ecclesiastical dignitaries” (COLEMAN, 2000, p. 78)

  1. O problema da pobreza surgiu no ocidente medieval a partir do século XIII e tem como ponto principal a polêmica da relação de Nosso Senhor Jesus Cristo e dos apóstolos com a propriedade. De modo geral, os franciscanos viam São Francisco de Assis, o fundador da ordem, como um homem que via a pobreza como a maior de todas as virtudes. Assim sendo, ele pregava um modo de vida simples, sem ostentação, e, por isso, cada frade deveria viver somente do necessário para a sobrevivência do corpo. As acomodações deveriam ser o mais simples possível. A Regra Bulada dos franciscanos afirma que “os irmãos não devem se apropriar de nada, nem de casa, nem de lugar, nem de coisa alguma”.
NOTA: Cf. Regra Bulada, capítulo VI: “fratres nihil sibi approprient ne domum nec locum nec aliquam rem”. In. FONTES franciscanas e clarianas. Tradução de Celso Márcio Teixeira (et alii), 2. ed. RJ: Vozes, 2008. p. 161.

  1. A contenda acerca da vida de pobreza não foi um tema incômodo somente para as ordens mendicantes – franciscanos e dominicanos –, todavia, também inquietou as autoridades eclesiásticas, sumos pontífices, religiosos e leigos.
NOTA: Cf. DE BONI, 2003, p. 244s.

  1. Do amor à santa Pobreza surgiu a controvérsia sobre o verdadeiro valor e a posição real do homem na sociedade, questionados pela proposta de São Francisco. Para os franciscanos do século XIII – e o mesmo também pode ser válido para os tempos atuais –, a contenda acerca da pobreza era um questionamento sobre a sociedade e as suas instituições, muito mais simples e muito mais profundo do que se pode imaginar, a saber, é possível outra sociedade e outra economia?
NOTA: Cf BÓRMIDA, Jerónimo. No-propiedad: una propuesta de los franciscanos del siglo XIV. Montevideo: Editorial Misiones Franciscanas, 1996, p. 11.
  1. As controvérsias de longa duração sobre a pobreza franciscana – entre 1250 e 1340 – despertaram muitas questões. A ideia franciscana de pobreza sem quaisquer direitos de propriedade ou posição legal provocou o debate sobre os direitos do indivíduo à propriedade e à subsistência. A análise dessas contendas oferece, entre outros elementos, uma ampla perspectiva sobre como a terminologia dos direitos naturais se desenvolveu no final do século XIII e no início do século XIV.
NOTA: Cf BÓRMIDA, Jerónimo. No-propiedad: una propuesta de los franciscanos del siglo XIV. Montevideo: Editorial Misiones Franciscanas, 1996, p. 11.
  1. A pobreza evangélica segundo Francisco de Assis é a busca da pobreza visando se despojar de si para estar mais aberto ao Pai. Receber tudo, não possuir nada: é assim que poderíamos resumir a regra de São Francisco. E, sobretudo, não ter a tentação de possuir o que se recebeu. Retomar incessantemente esse trabalho de despojamento. A lição é simples: não é bom ser pobre ou doente – a doença causa sofrimento, e o próprio Francisco não escondeu no final da sua vida que sofria muito –, mas quando se é pobre ou se está doente, torna-se dependente do amor dos outros. A pobreza tem um valor pedagógico: ela proporciona que o homem se dê conta de que não é autossuficiente, tentação do orgulho e do egoísmo, mas que é, ao contrário, feito para amar e ser amado. A pobreza de Francisco é, portanto, uma pobreza voluntária ou, pelo menos, aceita. A pobreza que não é voluntária é um grande sofrimento; ela pode destruir. É por esta razão que é preciso libertar aqueles que de alguma forma são escravos. Francisco sempre coloca os pobres “reais”, isto é, as vítimas da miséria ou da doença, na frente dele. E se ele jejua é, em primeiro lugar, para compartilhar o pão. Entre os discípulos de Francisco, a preocupação com os pobres é constante. A caridade sempre fez parte da vida dos franciscanos, religiosos ou leigos. No doente, vítima por excelência, uma vez que é sempre inocente da doença que se sofre, o franciscano reconhece o Cristo sofredor, vítima também ele. Mas, para ser voluntária, esta pobreza não deve transformar-se numa corrida para a miséria, da qual se pretende ser o campeão. São Boaventura denunciou este tipo de expertise da pobreza em alguns de seus frades. Em seu testamento, Francisco menciona especificamente o hábito próprio dos frades, um hábito rústico, remendado o quanto for possível, uma túnica de trabalhador ou de camponês. Humilde, mas suficiente. Porque a verdadeira pobreza não está nos extremos; a pobreza do corpo é apenas um instrumento; a verdadeira pobreza está na atitude interior que consiste em receber de Deus, dia a dia, o que ele concede ou não, mesmo o inesperado. Acolhido um dia, rejeitado no dia seguinte. E não olhar para si mesmo, nem para o que deu. O que, portanto, a pobreza proporciona? Nada, senão a confiança total em Deus. E a confiança total em Deus dá a alegria.
NOTA: Reportagem é de Yves Combeau e publicada no sítio da revista francesa La Vie, 21-06-2013.